Já se passaram 100 dias desde que Félix Tshisekedi assumiu o comando como chefe de Estado da República Democrática do Congo. A RFI analisou os resultados dos primeiros meses de sua presidência.

O método de Tshisekedi contra a rede Kabila

A presidência de Félix Tshisekedi é marcada por uma partilha forçada de poder com o ex-presidente Kabila, cuja coalizão manteve o controle sobre as duas assembleias, mas também uma grande influência sobre as redes financeiras e o exército.

O que foi neste contexto a estratégia de Felix Tshisekedi desde a sua chegada? Visitando os Estados Unidos em Abril, Félix Tshisekedi prometeu desmascarar o sistema ditatorial do seu antecessor. Mas, na verdade, a sua estratégia até agora é mais parecida com a de pequenos passos.

Não ataca frontalmente os interesses do ex-presidente no momento, nem âmbito político, nem no âmbito económico, mas prefere progredir paulatinamente para testar a sua margem de manobra, analisa um observador, através de acções: grandes obras, libertação de presos políticos e abertura do espaço público. Uma maneira de não se envolver em um impasse arriscado com o ex-presidente, enquanto tenta ocupar o terreno, existe ainda um vazio maracado pela ausência de primeiro-ministro e um governo de facto, disse um diplomata.

Fragilizado internamente pelo estrangulamento que Joseph Kabila manteve no Senado e na Assembleia, entre outros, Félix Tshisekedi também se ocupou desde a sua eleição para garantir a legitimidade no estrangeiro, ao aumentar as viagens para o estrangeiroAngola, Uganda, Ruanda, Estados Unidos. Os países que ele conhece podem ser aliados valiosos para “enfrentar” o presidente cessante.

Resta saber por quanto tempo será suficiente para acalmar a impaciência dos congoleses ansiosos por mudanças, bem como a impaciência desses mesmos aliados no exterior, que em troca de seu apoio esperam que ele se empenhe em fazer profundas reformas e promover de forma assertiva a luta contra a corrupção.

Nem governo nem primeiro-ministro

100 dias depois de chegar ao poder, Félix Tshisekedi ainda não tem primeiro-ministro ou governo. Na semana passada, no entanto, quando viajava para Kisangani, o chefe de Estado congolês havia prometido que era apenas uma questão de dias. Quais blocos? Por que não podem Félix Tshisekedi e Joseph Kabila chegar a um acordo? Será este é o sinal de desconforto na aliança assinada entre pro-Tshisekedi e pro-Kabila, que concluiu em Fevereiro um acordo e divisão de poder?

Oficialmente, o discurso é reconfortante. É a primeira vez que “os líderes de duas coalizões” decidem “compor uma maioria parlamentar”, portanto é normal que “leve um pouco de tempo”, moderou Aubin Minaku na RFI na segunda-feira.

Mas não oficialmente, mesmo nos bastidores do poder, alguns não escondem mais a sua impaciência. E que se reconheça que esse bloqueio reflecte o clima de desconfiança que gradualmente se instalou entre o pró-Tshisekedi e o pró-Kabila.

Basicamente, é a questão do equilíbrio de poder entre as duas coalizões que é jogada, com um lado um Joseph Kabila ansioso para poder contar com um primeiro-ministro que vai cuidar de seus interesses e outro é Félix Tshisekedi, que sabe que não pode aceitar um primeiro-ministro que seria rejeitado por seus partidários, mas também por seus aliados internacionais.

O chefe de Estado congolês também está sob pressão dos americanos, isto reflecte-se na decisão de ter se recusado a nomear Albert Yuma inicialmente proposto por Joseph Kabila. Especialmente porque até agora Félix Tshisekedi aparece como o grande perdedor do acordo alcançado com o ex-presidente, que detém uma grande influência na Assembleia e na maioria das províncias.

Ainda assim, para o novo chefe de Estado, começa a ser urgente, ter de dar voto de confiança a um quadro do seu partido. Temos que seguir em frente, diz ele, caso contrário, terá que enfrentar as frustrações da população.

A questão da segurança no leste

Entre  as suas grandes promessas de campanha, Félix Thsisekedi prometeu restaurar a segurança no leste da República Democrática do Congo. E, em particular, ao transferir a equipa do exército para Beni, uma cidade devastada por assassinatos em massa de grupos armados. 100 dias depois de chegar ao poder, que tal?

Em meados de Abril, visitando Goma e Beni, Félix Tshisekedi mais uma vez prometeu melhorar a segurança no leste. Temos que pegar os soldados que estão estacionados há muito tempo em North Kivu, disse ele. E processar oficiais ou políticos com ligações a grupos armados.

Mas desde que, no campo, nenhuma renovação das tropas foi encontrada e também não houve início de processo. A comitiva do presidente é justificada em dizer que ele não quer se apressar. Leva tempo para preparar uma estratégia sólida, diz Rubens Mikindo, executivo da UDPS (A União para a Democracia e o Progresso Social) que é um dos principais partidos políticos contemporâneos da República Democrática do Congo.

Félix Tshisekedi distinguiu-se assim a organizar uma importante reunião de segurança fora da capital, em Lubumbashi, e indo duas vezes para Kivu do Norte. Mas além dos discursos, os actos lutam para seguir.

Desde a sua eleição, por exemplo, nenhuma palavra em sua campanha prometia levar o pessoal do exército a Beni por mais eficiência. Nem no estabelecimento de um programa de desarmamento e reintegração dos grupos armados.

Isso realmente tem poder? Esta é toda a questão agora em vista da dificuldade de formar um governo e com uma Assembleia Nacional, um Senado e um aparato de segurança dominado pela coalizão leal ao ex-presidente Joseph Kabila.

Fonte: RFI

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