A semanas do início da campanha para as eleições gerais, jornalistas moçambicanos consideram que deve haver formação para distinguir notícias falsas para criar consciência do impacto das “fake news”.

Jornalistas moçambicanos defendem a formação do público no país para distinguir notícias falsas, dizem em entrevistas à Lusa, a oito semanas do início da campanha para as eleições gerais de 15 de Outubro.

“O meio de combatermos isto é com instrução: temos de preparar as pessoas”, refere Hélio Nguane, jornalista do diário Notícias, principal órgão impresso do país.

Além de conhecer critérios para distinguir notícias falsas, os cidadãos devem ter “real consciência do impacto” das chamadas “fake news”, acrescenta.

Nguane é um dos profissionais ouvidos pela Lusa a propósito da conferência Combate às Fake News — Uma Questão Democrática, que a agência de notícias portuguesa promove Quarta-feira, em Maputo.

As eleições gerais deste ano e as negociações em curso para um acordo de paz definitivo para o país, são dois dos principais dossiês em aberto, este ano, em Moçambique.

A necessidade de sensibilizar as audiências para o tema das “fake news” é um dos denominadores comuns nas respostas dos jornalistas acerca do tema.

Berta Madine, jornalista da Maputo Corridor Radio (que opera em inglês), considera que os consumidores de informação não têm as bases necessárias para distinguir uma notícia falsa de uma verdadeira.

“Primeiro, é preciso educar a nossa sociedade para que se perceba que há veículos que realmente transmitem notícias verdadeiras”, referiu, mas a formação tem dois sentidos.

“É preciso também que as pessoas que estão nesta área sejam formadas. É verdade que hoje temos o jornalismo do cidadão, mas é preciso perceber que há jornalistas e há pessoas que não são jornalistas e só estão a passar informações”, afirmou Madine.

Além de instrução das comunidades, Milcon Chucheme, jornalista da Televisão Independente de Moçambique, pede a intervenção de entidades reguladoras, alertando para a existência de portais na Internet, em Moçambique, que divulgam informação, mas cujos proprietários são desconhecidos.

“O desenvolvimento a que chegámos não é acompanhado por regulamentos, nem por literacia para que os cidadãos aprendam a usar estas novas ferramentas com consciência”, refere.

Cada qual “descobre que pode criar uma página na Internet e divulgar informação gratuitamente, tirando benefícios disso, mesmo sendo notícias falsas. Há uma falta de controlo”, acrescenta Milcon Chucheme.

A ilusão de dinheiro fácil serve de atractivo, porque “os ‘likes’ são convertidos em valores monetários”, nota Alexandre Nhampossa, jornalista do portal Zitamar News dedicado à economia moçambicana.

O problema é que, no fim, o resultado de quem apenas busca receita pode ser “criar ódios” com a informação posta a circular.

“Há entidades ligadas ao controle e licenciamento dos órgãos de informação e é preciso que sejam implacáveis” a identificar e travar falsos jornalistas, refere Eusébio Gove, jornalista da Rádio Índico.

De outra forma, o processo complica-se, sobretudo em países jovens, refere Jeremias Chemane, jornalista da Rádio Moçambique.

“Estamos numa sociedade em construção, em que ainda estamos a assimilar estes novos conceitos, e não sabemos lidar com isto”, sublinha.

Afonso Chavo, jornalista do grupo privado Soico — detentor do canal de televisão STV e do jornal O País, entre outros, entende que quem faz notícias falsas são “pessoas de má-fé” que não são facilmente identificáveis.

“Estas pessoas faltam-nos ao respeito de forma muito grosseira”, afirmou Chavo, que aponta o cruzamento de fontes como fundamental para combater as notícias falsas entre os media.

“É verdade que uma notícia falsa pode propagar-se em muito pouco tempo, mas se prestarmos atenção, a fonte primária é a mesma. Então, se procurarmos outra fonte e cruzarmos a informação, facilmente perceberemos que a notícia não é real”, destaca.

As regras básicas do jornalismo ganham um novo valor: “tem de haver um mínimo de investigação, verificar fontes e verificar documentos”, conclui João Chicote, jornalista do Diário de Moçambique.

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