Na semana passada, praticamente terminou a formação de duas alianças globais que deverão nos próximos anos lutar pelo domínio económico.

O primeiro bloco consiste da União Europeia, EUA, Japão e os seus aliados, preocupados com o crescente poder da China e da Rússia. No segundo estão as maiores economias emergentes, com intenção de acabar com a “ordem mundial unilateral”.

Amizade contra Trump

O BRICS não considera as guerras comerciais como grande problema, segundo as informações da cúpula realizada na semana passada.

A declaração de Joanesburgo contém 102 pontos e apenas quatro são dedicadas ao comércio internacional, sem mencionar os EUA ou Donald Trump. É de notar que todas as controvérsias comerciais devem ser resolvidas apenas através da Organização Mundial do Comércio (OMC).

No entanto, as declarações dos políticos, expressas na véspera e durante a cúpula, dão uma imagem ligeiramente diferente.

“O grande problema da comunidade mundial é a luta contra a ordem mundial unilateral […] Os países do BRICS são responsáveis pela formação de uma posição comum e por um posicionamento conjunto contra a ordem mundial unilateral”, disse o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi.

Não há dúvida de que a coordenação de esforços na oposição à política comercial de Trump também foi discutida em uma reunião restrita entre o líder chinês e Vladimir Putin nos bastidores da cúpula do BRICS.

A China e a Rússia estão entre os países mais atingidos pelas acções da actual administração de Washington. Os EUA vão impor novas tarifas contra Pequim, e contra Moscovo – novas sanções.

Uma nova surpresa do presidente dos EUA

Acidentalmente ou não, no dia da abertura da cúpula do BRICS, Donald Trump deu outro passo inesperado: em uma reunião com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ele concordou em discutir com a UE a abolição das tarifas no comércio bilateral.

“Hoje concordamos, em primeiro lugar, em trabalhar juntos para alcançar tarifas zero, zero de outras barreiras e zero de subsídios para produtos industriais, excepto a indústria automobilística […] Trabalharemos para reduzir as barreiras que impedem o crescimento do comércio e dos serviços, incluindo produtos químicos, farmacêuticos, médicos e soja”, informou Trump.

Até o momento as partes concordaram em se abster de aplicar novas tarifas, inclusive a automóveis e peças de reposição europeus, embora antes Washington as pretendesse introduzir. Em resposta, a UE prometeu aumentar a compra de gás natural liquefeito e reduzir as barreiras comercias à importação de soja.

Inimigos do meu inimigo

Na verdade, o presidente norte-americano simplesmente não tinha outras opções. A sua táctica de primeiro intimidar o parceiro, depois oferecer amizade em suas próprias condições não funcionou.

O primeiro fracasso foi com a China, quando Washington anunciou a aplicação de tarifas recorde aos produtos chineses e depois entrou em negociações com Pequim.

Como resultado, os chineses concordaram em aumentar a compra de produtos norte-americanos, incluindo gás natural liquefeito.

Os contornos de uma aliança comercial entre os EUA e a China eram visíveis, o que preocupava muitos políticos.

Afinal, essa aliança seria capaz de minar todo o comércio mundial.

No entanto, os falcões do Congresso dos EUA enterraram esse empreendimento, julgando logicamente que, em breve, os EUA se tornariam um parceiro menor nessa aliança.

Foi feita a Pequim uma exigência deliberadamente inaceitável: reduzir o programa de desenvolvimento do seu sector de altas tecnologias. E a guerra comercial eclodiu com novo vigor. Então Trump tentou forçar a Europa a ser amiga dele contra a Rússia, prometendo abolir as novas tarifas se o Velho Mundo se recusasse a construir o gasoduto Nord Stream 2 (Corrente do Norte 2) e começasse a comprar gás liquefeito norte-americano. A Alemanha e a França rejeitaram com indignação essa proposta.

Depois disso, o teimoso presidente norte-americano tentou a normalização das relações com a Rússia. Um novo “resgate” com a perspectiva de fazer amizade com Moscovo contra Pequim se tornaria uma boa alavanca para Washington pressionar a China e a Europa.

Novamente Kissinger

Conforme relatado pela revista The Daily Beast, referindo-se a fontes bem informadas, essa ideia pertencia ao mastodonte da política norte-americana, Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA.

“Em uma série de reuniões informais, Kissinger persuadiu Trump a cooperar com Moscovo para conter a China […] De acordo com a sua estratégia, uma relação mais próxima com a Rússia e outros países da região ajudará a limitar o poder e a influência crescentes da China. Na administração presidencial esta proposta foi recebida com compreensão”, escreveu a publicação.

As negociações com Putin em Helsinque estavam a sondar o terreno sob uma hipotética aliança anti-China. Mas a histeria que se desenvolveu nos Estados Unidos sobre a “traição de Trump” pôs fim a este cenário. No final, não restou a Trump nada mais que restabelecer a amizade com a Europa sob o lema de conter a China e a Rússia.

Não é apenas Washington que tenta criar alianças. No início de Julho, a China instou a União Europeia a agir em conjunto na Organização Mundial do Comércio contra a política comercial de Donald Trump. Esta iniciativa foi avançada em Bruxelas e Berlim pelo vice-primeiro-ministro do Conselho de Estado, Liu He. Bruxelas não aceitou a oferta, ao suspeitar que Pequim estava a tentar dividir o bloco ocidental. Depois disso, a principal esperança da China passou a ser o BRICS.

No que lhe concerne, a UE assinou um acordo de parceria económica com o Japão em meados de Julho. As partes pretendem eliminar gradualmente 99% das barreiras no comércio bilateral.

Em particular, o Japão abolirá os direitos sobre os produtos europeus — queijo, vinho, carne de porco. A União Europeia, no que lhe concerne, reduzirá gradualmente de 10% para zero as tarifas de importação de carros japoneses.

Se os Estados Unidos realmente eliminarem as tarifas de importação no comércio com a Europa, terão que concluir um acordo similar com o Japão. Como resultado, uma aliança surgirá sob a liderança dos países do G7, que se oporá ao BRICS na guerra comercial mundial.

Ganhar por número

As hipóteses de vitória neste confronto são determinadas pelas metas estabelecidas por cada lado. O G7 e seus satélites (Austrália, Coreia do Sul e outros) estão a tentar desacelerar drasticamente o crescimento da influência global da China, restringindo o desenvolvimento da economia chinesa através de tarifas.

Ao mesmo tempo, eles estão a tentar estimular suas próprias economias, ao eliminar as barreiras no comércio com os seus aliados. O objectivo final deste grupo foi formulado por Trump na reunião do G7 em Quebec: “Devemos governar o mundo”.

Os objectivos dos países do BRICS e os seus aliados são muito mais modestos, portanto, mais realistas — tornarem-se fortes o suficiente para não cumprir as regras que o Ocidente está impor.

A principal vantagem do G7 é tecnológica. A diferença pode ser drasticamente reduzida em resultado da implementação da estratégia chinesa “Made in China — 2025”, que visa desenvolver o sector das altas tecnologias.

Por outro lado, a aliança dos países em desenvolvimento atrai constantemente novos parceiros. Deve-se notar que os presidentes da Turquia, Argentina e muitos países africanos participaram como convidados na cúpula do BRICS em Joanesburgo. O número de partidários da aliança está a aumentar constantemente e é improvável que as guerras comerciais sejam capazes de impedir esta tendência.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite o seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.