O Equador enfrenta a maior crise política da sua história, só para ilustrar o chefe de Estado equatoriano viu-se obrigado a deslocar temporariamente o governo da capital Quito para Guayaquil. A agência de notícias, Sputnik, explica as causas e as consequências do que estaria a acontecer no país.

O que provocou os protestos?

A causa são as reformas económicas do governo uma vez que os sindicatos dos trabalhadores, o movimento indígena e outros grupos da sociedade civil são contra, dando assim início as manifestações pelo país.

Os equatorianos saíram às as ruas em massa insatisfeitos com o anúncio de Moreno de eliminar os subsídios a combustíveis como uma forma de conter o déficit fiscal equatoriano. Entretanto, a medida estaria a levar a um aumento no preço de itens básicos de consumo.

A medida faz parte de um pacote de medidas económicas que foram estabelecidas como consequência do acordo de empréstimo de USD 4,2 mil milhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), conforme cita a BBC.

Contudo, a eliminação de subsídios estaria a provocar um aumento de 120% do gasóleo e de 30% da gasolina normal, além de reformas trabalhistas e tributárias que estariam a afectar directamente os trabalhadores e a beneficiar os grupos exportadores e importadores.

Além do problema dos subsídios, o Equador hoje vive uma crise democrática de representação, pois, a sociedade não está certa de que o governo esteja a trabalhar em benefício da maioria, tornando os serviços públicos precários, elevando o número de desempregados e a perder soberania económica e política, entregando o país aos poderes fáticos e dividindo o país entre os grupos económicos.

Histórico de protestos no Equador

O Equador, um país dolarizado e que depende do petróleo, possui um grande histórico de problemas e crises, que já desafiaram a estabilidade no país e derrubaram governos.

Entre 1996 e 2007, o país passou pela pior instabilidade política de sua história, quando ocorreram diversos protestos sociais que provocaram a queda de três presidentes, sendo que dois deles tentaram realizar ajustes económicos.


© REUTERS / IVAN ALVARADO
Manifestante entra em confronto com a polícia em frente a sede do Parlamento do Equador

A última grande crise enfrentada pelo país foi a de 2005, quando o então presidente Lucio Gutiérrez, um militar aposentado, renunciou depois de diversos protestos que contavam com o apoio indígena.

Em 2007, Rafael Correa assumiu a presidência do país até 2017, período que fez com que o Equador fosse atingido pelo alto endividamento e pela falta de liquidez, aponta a Folha de São Paulo.

A crise equatoriana pode ser solucionada?

Perante a crise mais grave da história equatoriana, em que os protestos liderados por sindicatos do sector de transporte e indígenas tomam conta do país, o presidente Moreno afirmou que não revisaria o pacote de medidas, que inclui a eliminação de subsídios à gasolina, excluindo a possibilidade de solucionar o problema através de uma revisão.

O professor Viktor Jeifets, da cátedra de Teoria e História das Relações Internacionais da Faculdade de Relações Internacionais da Universidade Estatal de São Petersburgo, ressaltou à Sputnik que a situação talvez possa ser solucionada através da antecipação das eleições.

Por favor, compartilhe. Mensagem aos meus compatriotas nestes momentos tão difíceis da nossa história.

A hipótese também foi indicada pelo ex-presidente equatoriano, Rafael Correa, que apontou, durante uma entrevista à CNN, uma “saída constitucional” e democrática para resolver a situação, fazendo com que uma eleição antecipada dê a oportunidade de o povo votar e escolher a melhor opção para o país.

Fantasma do FMI estaria regressando à América Latina

Vale destacar que o Fundo Monetário Internacional (FMI), representado pelo Tesouro norte-americano, grandes bancos e instituições internacionais, também é conhecido por gerar problemas em alguns governos devido aos seus termos e imposições para firmar os acordos.

Hoje, na América Latina apenas o Uruguai, a Bolívia e o México resistem bravamente ao FMI, que está ativamente presente no Equador e na Argentina. A política do FMI segue levando os países à recessão e à depressão, e o mais recente exemplo disso é o Equador, que acaba de decretar estado de excepção em meio a imposições de um acordo com o FMI para dolarizar o país.

O Peru é outro país que está sofrendo as consequências de viver sob a tutela do FMI, sofrendo com os desdobramentos da Operação Lava Jato.

A Argentina, por sua vez, retrata a participação do FMI nos índices de pobreza e desemprego, além da elevação dos preços e desvalorização de sua moeda local.

Possíveis consequências para o Brasil

Na verdade, a crise no Equador provavelmente não trará consequências para o Brasil, mas sim servirá de lição.

“Tanto no Brasil como nos demais países que têm que lidar com sérios ajustes fiscais, vale observar o que acontece lá para não cometer os mesmos erros”, afirmou ao portal UOL a doutora em relações internacionais e especialista em América Latina Manoela Miklos.

Além disso, a situação de Moreno no Equador, que é apoiado pelo presidente argentino, Mauricio Macri, e pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, deve servir de alerta para que ambos os países não sigam o mesmo passo em direção à submissão radical, que Bolsonaro chama de “aproximação”, diante do presidente norte-americano, Donald Trump.

Essa submissão fez com que o presidente equatoriano fechasse um acordo de milhares de dólares com o FMI, devastando o país socialmente.

Ou seja, a situação de Macri, de Moreno e do presidente peruano Martín Vizcarra deve servir de alerta àqueles que pretendem seguir a política neoliberal e de submissão radical, causando o naufrágio dos países em questão, bem como de seus representantes. Sendo assim, Bolsonaro precisa aprender com os “vizinhos” para não cometer os mesmos erros e provocar uma devastação social no Brasil.

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