Em meio à pandemia do coronavírus, os cortes de produção não têm sido suficientes para amortecer a queda da demanda. Após os contratos futuros de petróleo nos Estados Unidos operarem no terreno negativo na Segunda-feira, 20, agora é a vez do Brent cair no mercado internacional. Especialistas não descartam que a cotação do barril negociado na Europa e no Oriente atinja o patamar de um dígito, pela primeira vez desde 1980.

Os ajustes de oferta acordados entre os maiores países produtores não têm sido suficientes para amortecer a queda brutal da demanda, ocasionada pela pandemia do novo coronavírus.

A retracção é tão grave que não há mais espaço para armazenamento nos Estados Unidos, onde os produtores estão a usar cavernas, comboios e navios para armazenar o produto. Até os famosos oleodutos (pipelines) americanos estão a enfrentar problemas de excesso de óleo.

No mundo, os terminais da commodity também estão a operar sob forte pressão, como em Singapura. Na região do Mar do Norte, os estoques estão praticamente lotados e, o que resta, já está agendado para as próximas semanas.

“Em Abril e Maio, o mercado vai continuar pressionado. Não descartamos o Brent a um dígito”, afirma Marcelo Assis, chefe de pesquisa da consultoria especializada Wood Mackenzie América Latina na área de upstream.

Ele lembra que o barril operou nesse nível na década de 1980, quando houve uma guerra de preços encabeçada pela Arábia Saudita, que não estava contente com o início da exploração de petróleo no Mar do Norte e em outros países, como o Brasil, que iniciou actividades em águas rasas.

A Wood Mackenzie trabalha com uma projecção de queda média da demanda global de 3,6 milhões de barris por dia (bpd), na média anual, para 2020. A consultoria estimava, no início do ano, um crescimento do consumo de cerca de um milhão de bpd.

Com isso, actualmente, o excesso de oferta (na média anual) é de cerca de um milhão de bpd. “Todos os cenários que estamos a trabalhar contemplam uma abertura gradual da circulação de pessoas ao redor do mundo, mas se tiver um repique de infecções pela covid-19, a situação pode piorar ainda mais”, diz Assis.

A consultoria estimava uma média para o Brent, neste ano, de cerca de 60 dólares. No entanto, agora a projecção gira em torno de 36 a 40 dólares, com o pior período de preços para Abril e Maio. “Esperamos uma retomada para o segundo semestre”, afirma o analista.

Walter de Vitto, da Tendências Consultoria, destaca que nesse patamar de preços, muitos produtores ao redor do mundo — especialmente no shale gas dos Estados Unidos — não conseguem operar, o que deve levar à falência de inúmeras empresas locais.

Diante deste cenário, os preços devem voltar a trilhar um caminho de recuperação. “Devemos ter um novo equilíbrio de preços, mas quando isso vai acontecer depende da velocidade e da magnitude da retomada da demanda”, afirma de Vitto.

Uma nova guerra?

A Guarda Revolucionária do Irão disse nesta Quarta-feira, 22, que lançou o primeiro satélite militar do país, em meio às polémicas em relação ao seu programa nuclear e de mísseis.

Em resposta, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump afirmou pelo Twitter ter instruído a Marinha americana “a abater e destruir toda e qualquer embarcação iraniana” caso se aproximem dos navios americanos.

Após um post no Twitter, os preços dos contratos futuros dispararam 27% nos Estados Unidos.

No entanto, para analistas, estes movimentos pontuais podem ser estratégicos, porque tanto o Irão quando os Estados Unidos são grandes produtores de petróleo e têm todo o interesse que os preços ganhem fôlego.

Apesar disso, o mercado segue incerto. “Quando olhamos para Junho, não temos muita clareza sobre como vai estar o cenário”, diz de Vitto.

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