A África do Sul, país que viveu um regime de segregação racial por toda a segunda metade do século XX, parece estar a voltar à voragem de discriminação – mas desta vez contra os brancos. A Sputnik Brasil viajou para uma comunidade de bôeres, que fazem parte do grupo étnico dos africânderes na África do Sul, para descobrir como é que vivem.

Situada a cerca de 30 quilómetros da capital administrativa da África do Sul, Pretória, a pequena comunidade de africânderes, Kleinfontein (Pequena Fonte, em português), costuma a suscitar acusações de “racismo dos brancos” na média internacional e até serve como objecto de vários mitos sobre a “intolerância” dos residentes para com os representantes de outras raças e crenças.

Porém, para entender o que se está passar com este povoado, e com todo o povo africânder, em geral, basta considerar essa situação de modo um pouco mais atencioso.

Origens de Kleinfontein

Logo à entrada da povoação, aparece um monumento em betão com palavras escritas na língua africânder: “Ons God Ons Volk Ons Eie” (Nosso Deus, Nosso Povo, Nossa Propriedade).

Monumento com palavras escritas na língua africâner: “Ons God Ons Volk Ons Eie” (Nosso Deus, Nosso Povo, Nosso Propriedade), em Kleinfontein

Para mais, a entrada de Kleinfontein desfruta de seu próprio banco, serviço de entretimento (aluguer de DVDs), cafetaria e restaurante. Foi neste ponto, após passar pelos “guardas fronteiriços”, que nos encontramos com Dannie de Beer, membro do Conselho de Administração da comunidade.

Nosso guia e africânder orgulhoso, Dannie, está vestido de um casaco tirolês que lhe foi presenteado por seus amigos austríacos, que, nas suas palavras, expressam seu apoio à comunidade africânder por eles mesmos serem uma nação dividida entre vários territórios ao longo dos séculos.

Dannie de Beer mostra o mapa de Kleinfontein

Logo à partida, Dannie se mostra uma pessoa muito hospitaleira e pronta para responder a quaisquer perguntas que surjam, porém, lamenta a quão preconceituosa costuma ser a cobertura jornalística em relação a Kleinfontein.

“Eu penso que uma das razões pelas quais Kleinfontein, o povo bôer, o povo africânder, não têm tanto sucesso é, em grande parte, a compostura da média, que simplesmente diz: “É um assunto racista.” A componente cultural não recebe nenhuma atenção da média. Acolhi numerosos jornalistas aqui, estes passavam um dia inteiro comigo, conversámos sobre tudo, e no dia seguinte eles lançavam um artigo a dizer ‘enclave racista de brancos’…”, conta Dannie ao nos propor um café da manhã típico e um copo de chá tradicional sul-africano.

Ele tem estado presente em Kleinfontein logo desde o início da comunidade, ou seja, desde o ano de 1992, dois anos antes do fim do regime do apartheid, e hoje em dia participa de administração do povoado, tem uma moradia aqui e conhece cada residente pelo nome.

“Somos um território de propriedade comunitária, isto é, a propriedade inteira pertence a uma empresa [e quando compra imóveis aqui], torna-se accionista desta empresa”, esclarece Dennie.

Vivendas em Kleinfontein

No total, Kleinfontein ocupa 800 hectares de terras e, como assegura um dos seus fundadores, não perde a oportunidade de expandi-las quando aparecem algumas propostas de venda por perto. O povoado apareceu entre 1992 e 1993, na mesma época que surgiu a Orânia, outra comunidade de africânderes na África do Sul que até tem sua própria bandeira e moeda.

Porém, existem várias diferenças entre estas duas comunidades, nos conta Dannie.

“Começamos de modo muito diferente deles, naquele momento Mandela estava prestes a ser libertado, e não era o momento certo para um africânder fundar um povoado por si mesmo fora de Pretória. Então, deixamos estar, estava muito calmo. O desenvolvimento foi muito calmo, o marketing foi muito calmo. Não fizemos muito marketing porque não queríamos provocar qualquer alarme”, relembra.

Para que africânderes precisam deste tipo de comunidade?

De acordo com Dannie, a comunidade se baseia em vários fundamentos, um dos quais é a língua materna dos residentes, que é o africâner. Hoje em dia, é considerado oficialmente como um dos idiomas oficiais da África do Sul, porém, está cada vez mais ausente nas estruturas institucionais e estabelecimentos de ensino.

“Os alicerces de Kleinfontein são a cultura africânder, sua herança, sua história, a língua… Somos 100% cristãos divididos, talvez, entre vários ramos do cristianismo. Eventualmente, terá dois ou três católicos”, diz Dannie. “Então, o primeiro componente é a cultura.”

Já o segundo componente, de acordo com o nosso guia, é o facto dos residentes “trabalharem para eles mesmos”.

Construção de vivendas em Kleinfontein

“Toda a era do apartheid pode ser resumida em que os africânderes e outros representantes da raça branca usavam os negros para fazer todo o trabalho, mas recusavam lhes conceder terras, direito de voto, etc. Aqui temos tudo exactamente ao contrário, reservamos todo o emprego para os africânderes e toda a idéia consiste em que as pessoas que cultivam a terra a possuem”, afirma o interlocutor da Sputnik Brasil.

Dado que para muitos a intenção dos bôeres se concentrarem em comunidades fechadas fora das grandes cidades parece um “assunto racista” e uma tentativa de “fazer o país voltar para a época do apartheid”, Dannie faz questão de esclarecer sua visão de Kleinfontein, ao destacar os problemas mais urgentes na sociedade sul-africana de hoje em dia.

Dannie de Beer, membro do Conselho de Administração de Kleinfontein

“O nosso objectivo é de facto o mesmo — é um porto seguro para um africânder, porque na nova África do Sul a herança de Nelson Mandela não contribui para o bem-estar dos africânderes. Nos sentimos muito alienados e desligados da nova África do Sul, as leis são contra nós”, desabafa. “Sou um homem branco, se eu abrir um jornal sul-africano para procurar um trabalho, vai provavelmente aparecer a chamada posição de acção afirmativa, o que quer dizer que se é branco, não pode ganhar o emprego. Meramente pelo facto de eu ser branco. Então, é uma atitude completamente racista para com a nova África do Sul”, racionaliza o entrevistado.

Segundo Dannie, passadas mais de 20 décadas do fim da segregação racial, o africânder continua a ser visto como a língua do opressor, e os falantes nativos dela são considerados geralmente como “opressores, agressores, pessoas que inventaram o apartheid”.

Lar de idosos em Kleinfontein

“É por isso que os lugares como Kleinfontein e Orânia existem”, explica.

Vida quotidiana em Kleinfontein

Já que Kleinfontein fica tão perto de outros povoados, é muito difícil ser economicamente activo aqui, narra Dannie, tanto mais que as terras são de facto pouco propícias para agricultura.

“Esta é uma diferença grande entre nós e Orânia, eles são mais autos-suficientes”, reconhece.

Assim, os residentes da comunidade decidiram apostar mais na área de serviços e propriedade intelectual. Kleinfontein desfruta de grande número de especialistas em várias esferas que, porém, precisam viajar uns quilómetros do seu povoado para ir trabalhar em instituições por perto, pois, a cidade ainda não possui uma estrutura verdadeiramente desenvolvida.

“Trata-se mais de propriedade intelectual do que componentes físicos. Temos muitos engenheiros, temos muito médicos, temos cirurgiões. Temos muitos académicos… No que se trata do componente agrícola, […] somos mais uma área residencial do que uma comunidade fazendeira”, diz, adiantando que nesta cidade pequenina de 1.500 habitantes tem quatro neurocirurgiões de alta qualificação que trabalham em hospitais nas proximidades.

Porém, Kleinfontein parece ter lugar para qualquer bôer — embora seja pequena, divide-se em bairros diferentes, uns “de luxo” e outros muito mais humildes. Os preços do aluguer aqui são acessíveis para qualquer um — um quarto custa a partir de 75 euros por mês e uma casa — a partir de 190 euros por mês.

Além disso, os residentes fazem tudo para não depender do mundo exterior em questões de energia, abastecimento de água e construção civil.

“Temos uma escola, uma Administração Municipal, tudo o que pode ver aqui foi construído por africânderes. A construção é a nossa indústria muito forte. Então, os africânderes, de facto, trabalham. Se viajar pelas outras partes da África do Sul, vai ver que o trabalho fica mais para os negros”, conta.

Enquanto todo o país, especialmente a Cidade do Cabo e Joanesburgo, estão a viver uma crise de escassez d’água, com placas em hotéis a recomendar a redução do tempo do banho a 3 minutos e cortes em bairros inteiros que duram vários dias, Dannie assegura que Kleinfontein nem sequer está a sentir este tipo de problemas. de problemas.

“Temos por volta de 17 quilolitros por pessoa por mês. O consumo em Kleinfontein é muito baixo. Somos muito dependentes da época da chuva. Sim, temos nossas restrições próprias em relação à água […] Mas nunca tivemos cortes dela […] Agora estamos em meados do Inverno, é a nossa época do ano mais seca, mas não temos nenhumas restrições. Posso irrigar o campo de rugby, encher a piscina, somos menos vulneráveis [que as cidades de fora]”, pormenoriza.

Ele relembra ainda que quando Kleinfontein foi fundada, isto é, 22 anos atrás, havia consumo tão pequeno de água que os residentes até a vendiam para os supermercados mais próximos.

Barragem em Kleinfontein

A Internet também é algo que faz parte integrante na vida dos bôeres em Kleinfontein. Mais que isso, eles próprios montaram sua infraestrutura para a rede.

“Produzimos Internet para as pessoas em torno de 80 quilômetros daqui, porque temos qualidade bem alta. Alguns destes aparelhos transmitem até para 100 quilômetros de distância”, narra.

Evidentemente, essa política de buscar a maior autosuficiência possível tem a ver com o conceito de “Volkstaat”, traduzido como “Estado do Povo” — um projecto africânder que consiste na criação de um Estado separado dentro da África do Sul.

“A nossa idéia é funcionar como se fôssemos um Estado independente”, diz Dannie sorrindo. “Tudo o que podemos fazer por nós mesmos, fazemos.”

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