Dos aspectos mais públicos às facetas desconhecidas, retrato do Presidente do Zimbabué pelo jornalista que melhor conheceu o país, onde viveu mais de duas décadas e do qual acabaria por ser expulso. Releia o artigo originalmente publicado na Única em Junho de 2008.

Libertador africano. Tirano africano. Pai da democracia do Zimbabué. Ditador que rejubila com a brutalidade. Defensor da África moderna. Torturador do seu próprio povo. Robert Gabriel Mugabe é uma mistura inflamada destas contradições, que atrai continuamente as atenções do mundo e uma confusão de expectativas há mais de trinta anos.

O intransigente líder guerrilheiro marxista que derrubou o regime rodesiano de minoria branca de Ian Smith transformou-se num estadista magnânimo, apelando à reconciliação racial, quando se tornou no primeiro líder do Zimbabué em 1980.

Robert Mugabe deleita-se com o seu papel de justiceiro do colonialismo britânico, contudo veste fatos Savile Row e fala persistentemente com vogais roladas copiando a elite britânica. Só quando faz campanha eleitoral é que se digna usar camisas africanas de cores garridas e com o seu retrato estampado.

Melhorou a saúde, a educação e o nível de vida de tal modo que os zimbabueanos se tornaram invejados por toda a África. Depois, Mugabe passou a saquear a economia do país através da corrupção e da expropriação de propriedades de forma que o seu povo se transformou num dos mais desesperados do continente. Aos 84 anos de idade mantém um domínio inflexível do poder e dá ordens a bandos para brutalizarem e matarem todos os suspeitos de fazerem oposição ao seu regime, depois de ter perdido as eleições de 29 de Março.

Robert Mugabe fez tudo isto pelo poder. É isso que se lê na sua expressão. Ao conhecê-lo no seu gabinete de Harare há poucos anos, fiquei surpreendido com o seu rosto de lábios finos e olhos de aço. Usa um bigode fino, que faz lembrar Hitler e que quase não se vê nas fotografias, mas denota uma personalidade inquietante. Mugabe não tem um rosto aberto e bem parecido como o de Nelson Mandela ou Kofi Annan, antes destila ressentimento pelos anos de humilhação durante o regime minoritário branco da Rodésia. Vê-se que carrega um rancor a que muitos africanos ainda respondem.

Move-se com uma rigidez imprevisível e gesticula com uns dedos longos e ossudos. As suas mãos — o punho cerrado, o dedo acusador espetado — parecem tão ameaçadoras nos discursos públicos que o seu gabinete de imprensa emitiu em tempos uma ordem aos fotógrafos para evitarem tirar fotografias que lhe focassem as mãos. Os fotógrafos ignoraram-na. De qualquer modo, os movimentos das suas mãos combinam-se com a expressão ameaçadora do seu rosto.

Arguto, determinado e cruel, Robert Mugabe conseguiu deitar abaixo a Rodésia dominada pela minoria branca e fundar um Zimbabué mais próspero e equitativo. Mas serão os últimos anos do seu regime ruinoso e assassino que determinarão o seu legado.

Desde que chegou ao poder em 1980, e antes disso durante a luta armada de 16 anos contra a Rodésia de Ian Smith, Mugabe provou ser terrivelmente inteligente e capaz de ultrapassar em esperteza todos os outros políticos, não só no Zimbabué mas em toda a África e pelo mundo fora. Até agora só houve um opositor que ele não conseguiu vencer: a economia do seu país.

Embora ganhasse o poder como defensor dos camponeses negros e pobres do Zimbabué, Mugabe traiu os seus seguidores do mundo rural. Mesmo as suas muito publicitadas expropriações de propriedades de brancos não compensam o facto de actualmente a vida do habitante comum ser marcada pela fome constante e pela miséria.

Quem sai aos seus…

Nascido em 1924, quando o seu país era a Rodésia, Mugabe cresceu enquanto o governo colonial despojava os africanos das suas terras ancestrais e lhes negava os mais elementares direitos cívicos, muitas vezes com violência. A casa da família era uma cabana de colmo e os Mugabe eram pobres, mesmo pelos padrões de outros camponeses. Mugabe parece-se com a mãe, tanto nas feições como no seu modo austero.

Bona Mugabe, uma mãe severa, chefiou a família depois de o marido, Gabriel, a abandonar quando Mugabe tinha 10 anos. Bona procurou a protecção da missão católica de Kutama, que muitos compararam com uma comuna religiosa governada por padres jesuítas. O jovem Mugabe tinha de pedir autorização aos padres para visitar a sua avó «pagã», que vivia fora do complexo.

Robert Mugabe agradou à mãe ao tornar-se num estudante exemplar. Era um rapaz solitário, raramente se juntava aos companheiros para brincar ou praticar desporto, segundo dizem os seus contemporâneos, e era tenaz e obstinado. Lia livros escolares enquanto apascentava o gado e fazia armadilhas para apanhar pássaros, o que ajudava a alimentar a família. Bona Mugabe viveu até aos 90 anos e viu o filho tornar-se no primeiro primeiro-ministro do Zimbabué.

Mugabe continuou a ser contra o racismo institucionalizado na Rodésia e na África do Sul e frequentou a Universidade de Fort Hare, conhecida como o «berço do nacionalismo africano» porque foi aí que estudaram muitos futuros líderes africanos, incluindo Nelson Mandela, Joshua Nkomo e Walter Sisulu.

Mugabe tornou-se professor primário, primeiro na Rodésia e depois no Gana, entre 1958 e 1960, quando este se tornou no primeiro país africano a chegar à independência. Deleitou-se com a exuberância embriagante do Gana e o pan-africanismo defendido pelo seu líder, Kwame Nkrumah, e gostou de ensinar.

Mugabe continua a ser até hoje um professor rigoroso, sempre pronto a dar uma longa palestra sobre qualquer assunto. Quando o entrevistei há alguns anos, a sua resposta à minha primeira pergunta durou mais de 30 minutos, enquanto divagava sobre um ponto obscuro da história do Zimbabué. Não estava a responder ao que eu lhe perguntara mas sim a explicar-me o que achava que eu devia ficar a saber. Em certa ocasião, durante uma conferência de imprensa, dissertou sobre um aquário que tinha visitado, contando aos jornalistas ali reunidos tudo sobre os diversos peixes que vira. Eles não estavam interessados mas ele não ligou nenhuma.

Quando estava no Gana, Mugabe casou com a ganesa Sally Hayfron, uma mulher bonita e de espírito vivo que contrastava com a personalidade melancólica dele. Mugabe e a sua jovem mulher regressaram à Rodésia e aderiram ao crescente movimento nacionalista africano que desafiava o regime rodesiano de Ian Smith. Subiu rapidamente na hierarquia partidária, ganhando fama pelo domínio excelente da língua inglesa e pela visão calculista e estratégica. Tornou-se secretário-geral da recém-fundada União Nacional Africana do Zimbabué (ZANU). Quando o regime de Ian Smith lançou acções de repressão contra os nacionalistas em 1964, Mugabe foi preso juntamente com duas dúzias de companheiros. Os dez anos de prisão foram para ele um período muito rico em formação. O único filho de Mugabe e de Sally morreu de malária e recusaram-lhe autorização para assistir ao funeral. Sempre estudioso, Mugabe formou-se por correspondência e ensinou outros. Também chefiou uma conspiração contra o líder da ZANU, o reverendo Ndabaningi Sithole, que foi derrubado da presidência do partido num golpe lançado da prisão.

Depois da sua libertação em 1974, Mugabe fugiu para o exílio em Moçambique. Afastando pela astúcia outros rivais, chegou a líder da ZANU.

Sou dos muitos que acreditam que Mugabe usou de violência para obter o controlo da ZANU. Rivais e aspirantes ao lugar morreram em carros armadilhados e acidentes misteriosos. É claro que Mugabe usou de violência na guerra contra a Rodésia e não hesitou em relação ao número de pessoas, incluindo os seus próprios seguidores, que tiveram de morrer. O regime rodesiano era violento e só podia ser derrubado por um líder mais calculista e violento, e esse foi Robert Mugabe. Mas a violência corrompe e Mugabe recorre à violência sempre que o seu poder é ameaçado.

Com o apoio da China comunista, Mugabe concebeu uma guerra a partir das zonas rurais contra o regime rodesiano, a qual se tornou um caso exemplar clássico de uma luta de guerrilha bem-sucedida. Quando chegou o momento de negociar, na Lancaster House de Londres em 1979, Mugabe usou de toda a sua astúcia para forçar Ian Smith e os britânicos a vacilar, tendo conseguido um acordo que levou às eleições em regime de maioria.

Da camisa africana aos fatos Savile Row

Mugabe subiu a parada ao decidir que o seu partido, a ZANU, se apresentaria sozinha a essas eleições, em vez de se aliar ao grupo nacionalista rival, o ZAPU de Joshua Nkomo. A aposta compensou. A ZANU chegou ao poder com uma vitória esmagadora, apoiada pela maioria da etnia shona, que constitui cerca de 70% da população do Zimbabué.

Até aí vilipendiado pela população da Rodésia como um terrorista sedento de sangue, Robert Mugabe apareceu na televisão nacional para proclamar a reconciliação racial e apelar a todos os que viviam naquele país cansado de guerra para trabalharem em conjunto e construírem um Zimbabué multirracial, justo e próspero. Foi um desempenho brilhante de moderação num inglês impecável, que espantou os seus inimigos na Rodésia e entusiasmou os seus apoiantes.

E assim continuou, como primeiro primeiro-ministro, ao nomear um governo de unidade nacional que incluía brancos, o líder guerrilheiro rival Joshua Nkomo e outros membros da etnia minoritária ndebele. Mugabe lançou políticas de vulto que rapidamente melhoraram a saúde pública, a educação e os níveis de vida da maioria negra do Zimbabué.

Por tudo isto, Mugabe recebeu o aplauso mundial como sábio homem de Estado e em 1981 chegou a fazer parte de um lista para Prémio Nobel da Paz.

A demonstração de liderança capaz de Mugabe também foi um sinal para a África do Sul: os negros podiam liderar com sucesso uma democracia multirracial. Ao governar com competência o Zimbabué, Mugabe estabeleceu um precedente que enfraqueceu significativamente o apartheid.

Contudo, não tardou muito que Mugabe provasse ser rígido, vingativo e cruel, traços que se tornariam marca do seu governo.

Quando o líder da oposição Joshua Nkomo protestou contra os esforços de Mugabe para estabelecer um Estado de partido único, Mugabe expulsou-o do seu governo e prendeu diversos dos seus seguidores do exército. Um pequeno grupo de fiéis de Nkomo iniciou um protesto violento e Mugabe pôs em acção a Quinta Brigada do exército, que tinha sido especialmente treinada pelos norte-coreanos, e que desencadeou uma campanha sangrenta que se calcula ter matado cerca de 10.000 civis rurais da etnia minoritária ndebele.

A reputação de Mugabe era tão elevada nessa altura que ele não foi muito condenado pelos assassínios. Contudo, hoje, os Massacres da Matabelalândia surgem como a principal atrocidade no que respeita aos direitos humanos e é um caso pelo qual, na opinião de muitos activistas, Mugabe e os seus generais devem ser responsabilizados.

Em Dezembro de 1987, Mugabe conseguiu que Nkomo concordasse em que o seu partido fosse engolido pela ZANU-PF. Mugabe dominava o Zimbabué, agora como Presidente, embora nunca conseguisse atingir o almejado Estado monopartidário.

Vi Mugabe falar por ocasião dos Massacres de Matabelalândia e observei como a sua fúria ia crescendo. «Quando vemos uma serpente, temos de lhe cortar a cabeça. Temos de mostrar a esses ndebele que têm de obedecer à nossa autoridade!» Ninguém duvidou que Mugabe tinha ordenado os massacres. A divisão étnica entre a maioria shona do Zimbabué e a minoria ndebele é uma importante linha de fractura que afecta todos o*s aspectos da vida política e social do país. Mugabe agravou grandemente a divisão étnica com os Massacres da Matabelalândia. Muitos dos que o conhecem bem dizem que ele foi particularmente cruel com o povo ndebele porque o pai abandonou a família para se juntar a uma mulher ndebele. Qualquer que seja a razão, Mugabe agravou seriamente as divisões étnicas no Zimbabué.

Na sombra de Mandela

Quando Nelson Mandela foi libertado da prisão em 1990, visitou o Zimbabué antes de qualquer outro país com o objectivo de enaltecer Mugabe por ter dado um exemplo que ajudou a derrubar o apartheid. Mas, à medida que Mandela se tornava o grande líder de África, Mugabe caía na sombra. Ressentido por ser afastado das luzes da ribalta internacional, Mugabe rejeitou o estilo tolerante de liderança de Mandela e começou a afirmar-se no pólo oposto, um homem poderoso que impunha as suas políticas e que negava direitos democráticos aos seus detractores. As suas diatribes cruéis contra os homossexuais em 1995 mostram como ele se projectava como uma alternativa a Mandela.

Confrontei Mugabe sobre a questão dos direitos dos homossexuais e ele reagiu com uma explosão de fúria. Tinha estado a observá-lo a falar para um grupo de crianças da escola na Feira Internacional do Livro de Harare em Agosto de 1995. Ali fez o seu famoso discurso em que denunciou os homossexuais como sendo «piores do que porcos e cães». Depois do discurso, apanhei-o antes de entrar na sua limusina e perguntei-lhe: «Está a dizer que os homossexuais não têm direitos?» Mugabe agarrou-me um braço e abanou-o gritando: «Não, não têm quaisquer direitos. Nunca!» Empurrou-me com tanta força que perdi o equilíbrio e bati com a cabeça na câmara de televisão atrás de mim. É este o modo violento e visceral como ele reage, não apenas na questão dos direitos dos homossexuais, mas a qualquer pessoa ou grupo que ouse questionar o seu regime.

A mulher de Mugabe, Sally, morreu em 1992 de insuficiência renal. Em 1996 Mugabe casou com Grace Marufu, sua antiga secretária, que tem menos 40 anos do que ele. Mugabe já era pai de dois filhos de Grace, numa relação adúltera enquanto a sua mulher Sally estava ainda viva. O casal teve mais um filho depois de casar. Os três filhos são uma menina, de nome Bona, em homenagem à mãe de Mugabe, e dois rapazes, Robert Jr. e Bellarmine. Alcunhada de «Gucci Grace» devido ao seu gosto por compras caras e ao palácio extravagante que mandou construir, Grace Mugabe é considerada pela população do Zimbabué como culpada do agravamento da corrupção e do desgoverno de Mugabe.

O casamento de Robert Mugabe com Grace foi um acontecimento de luxo na sua casa de infância, a Missão Kutama. O Presidente moçambicano Joaquim Chissano foi o padrinho. O Presidente sul-africano Nelson Mandela assistiu. Foi servido um banquete a 12.000 pessoas. Vi Mugabe atravessar a multidão que o aclamava. E vi o seu sorriso transformar-se num esgar de fúria quando Mandela recebeu muito mais aplausos do que ele.

Durante a década de 90, Mugabe conseguiu afastar facilmente os diversos rivais do interior do partido que lhe queriam suceder. A economia do Zimbabué começava a claudicar, mas Mugabe continuava a gastar. Seguindo os conselhos do Fundo Monetário Internacional, reduziu as despesas com a saúde e a educação mas continuou a financiar um dos exércitos permanentes maiores de África, a polícia e um serviço secreto doméstico. Em 1997 acrescentou à folha de pagamentos cerca de 20 mil «veteranos de guerra», um grupo heterogéneo de apoiantes, poucos dos quais tinham de facto combatido na guerra contra a Rodésia. O défice cresceu rapidamente e o dólar do Zimbabué iniciou uma queda, da qual nunca mais recuperou.

Em Agosto de 1998, Mugabe aumentou ainda mais os gastos com o envio de tropas do país para a distante guerra do Congo. Estava a exercitar os músculos como um dos militares poderosos de África, permitindo que os seus generais e amigos pilhassem os recursos do Congo a expensas do contribuinte e da economia do Zimbabué. O custo da expedição ao Congo nunca foi totalmente reportado no Orçamento e constituiu o início do dramático declínio económico do Zimbabué.

Ao mesmo tempo que a população do Zimbabué se agitava desejando um governo mais flexível, mais responsável e mais receptivo, Mugabe movia-se na direcção oposta. Reagiu com um ódio visceral ao lançamento em 1999 do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), nascido nos sindicatos e nas organizações cívicas, e subverteu as tentativas de restringir os poderes presidenciais através de uma nova Constituição ao impor o seu próprio projecto de revisão. Teve a primeira rejeição nas urnas em Fevereiro de 2000, quando o seu projecto constitucional foi derrotado num referendo nacional. Mugabe enfrentava eleições parlamentares dentro de quatro meses e parecia que o seu tempo no poder estava terminado.

Sob a lei da repressão

Mugabe reagiu com uma determinação furiosa para se manter no poder, custasse o que custasse. A espoliação de quintas na posse de brancos começou em Março de 2000, com a morte de 12 agricultores brancos e de muitos mais trabalhadores agrícolas negros. Ao mesmo tempo, 300 membros negros do MDC foram vítimas da violência estatal. Tornou-se sistemática a tortura pela polícia e pelo exército contra qualquer pessoa. Milhares de habitantes do país, especialmente os apoiantes do MDC, foram sacrificados, de acordo com registos elaborados por activistas dos direitos humanos. Na sua determinação de se manter no poder, Mugabe adoptou as tácticas utilizadas pelo seu antecessor rodesiano, Ian Smith: leis de segurança restringindo reuniões públicas e repressão contra a imprensa.

Em 2005, alertado pelos seus serviços secretos para uma possível revolta de habitantes da cidade insatisfeitos, Mugabe lançou um ataque preventivo que destruiu as casas de 700 mil moradores pobres. Muitos juntaram-se às fileiras dos antigos trabalhadores agrícolas pobres, transformando-se numa população sem recursos, com altos índices de doença e morte, segundo especialistas de saúde.

Nas eleições de 2008, em 29 de Março, Mugabe fez aumentar os casos de fraude eleitoral, mas mesmo assim não conseguiu igualar o número de votos de rejeição da sua ditadura pela população. Pela primeira vez desde 1980, a ZANU-PF perdeu o controlo do Parlamento para a oposição do MDC. Na eleição presidencial, mesmo depois de o exército levar mais de um mês a contar e manipular os votos, Mugabe recebeu menos votos do que o líder do MDC, Morgan Tsvangirai, que já na recta final desistiu desta segunda volta que, até ao fecho desta edição estava marcada para ontem, 27 de Junho.

Vergado pela idade

Mugabe fez campanha da única maneira que sabe: lançando uma onda de violência por todo o país, em que já foram mortos mais de 65 suspeitos de simpatia pela oposição e torturados alguns milhares, de acordo com o MDC e diversos médicos.

Nas fotografias de Mugabe a fazer campanha para a eleição de 27 de Junho posso ver o quanto envelheceu. O cabelo está pintado de preto mas cada vez tem mais falta dele no alto da cabeça. O seu maxilar, outrora firme, agora descai à volta do queixo. Parece enfraquecido. Contudo, mesmo aos 84 anos, os olhos brilham com uma inteligência feroz e firme determinação. Continua furioso e amargo. Agarra-se ao poder através da brutalidade e da violência porque não sabe fazer de outro modo.

Quaisquer que sejam os resultados desta segunda volta das eleições – se é que acontecem -, Robert Mugabe será lembrado como um dos libertadores africanos que se tornou num dos seus tiranos.

Durante 23 anos, o jornalista norte-americano Andrew Meldrum trabalhou no Zimbabué e expôs o regime de violência e tortura de Robert Mugabe. Foi correspondente do britânico «The Guardian» e expulso do país em 2003 (na foto, ao centro). Actualmente, é professor convidado na Nieman Foundation, em Harvard, vocacionada para estudos no âmbito dos «media». É também o autor de «Where We Have Hope», as suas memórias do Zimbabué.

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