Vindos da Núbia, no actual Sudão, eles conquistaram o Egipto nos tempos da Bíblia, e reinaram por décadas.

A cena deve ter sido incrível e assustadora. Imagine dezenas de embarcações lotadas de guerreiros descendo o rio Nilo por volta de 730 a.C. O exército havia partido do reino de Kush, na Núbia, território que hoje pertence ao Sudão. Objectivo: conquistar o Egipto, já em franca decadência àquela altura.

Quem liderava o ataque era o próprio rei, Piye. No decorrer de um ano inteiro, ele e seus homens derrotaram todos os chefes egípcios que lhes apareceram pela frente. Alguns combates foram especialmente encarniçados. Mesmo assim, as tropas do governante núbio chegaram inteiras até o delta do Nilo. Ao final da campanha, Piye era o senhor absoluto de um império que ia do Norte sudanês ao Mediterrâneo. Tornou-se, assim, o primeiro faraó negro da história, representante de uma casta de núbios que controlaria o Egipto antigo por décadas durante o que os historiadores hoje chamam de 25ª Dinastia.

Tudo em família

Com a vitória sacramentada, Piye regressou a Napata, na Núbia, trazendo os tesouros que haviam sido pilhados pelo caminho. Daquela cidade, ele governaria o Egipto por 35 anos sem jamais ter seu poder ameaçado. Ao morrer, em 721 a.C., foi sepultado no melhor estilo faraónico: numa pirâmide que havia mandado construir em El-Kurru, no Sudão, com seus cavalos favoritos.

Depois dele, vieram Shabaka e Taharqa, integrantes da mesma família. O primeiro, irmão de Piye, decidiu transferir o centro do poder para a cidade de Mênfis, em território egípcio. Ordenou a construção de vários monumentos em Tebas e Luxor, que estão lá até hoje. Em Karnak, Shabaka eternizou sua imagem numa estátua de granito rosa na qual ele aparece com uma coroa formada por duas serpentes – simbolizando a unificação do Alto e do Baixo Egipto. Taharqa, no que lhe concerne, era filho de Piye e assumiu o trono em 690 a.C., após a morte do tio Shabaka. Notabilizou-se como guerreiro e chefe militar antes mesmo de virar faraó. E encontraria nos poderosos assírios os seus maiores inimigos.

Ignorados

Além de serem personagens historicamente importantes, os faraós negros do Egipto deixaram para a posteridade monumentos fantásticos – como as pirâmides de Nuri ou Meroë, bem menos conhecidas e visitadas que as egípcias. Mesmo assim, foram solenemente ignorados ou subestimados por muito tempo. Só nas últimas 5 décadas os arqueólogos passaram a creditar-lhes a devida relevância. O motivo? Preconceito de boa parte dos arqueólogos que monopolizaram as pesquisas sobre o Egipto do final do século XIX até a década de 1950.

Os núbios foram reis do Egipto por 60 anos

Até o famoso egiptólogo americano George Reisner, da Universidade de Harvard, embarcou no racismo. Entre 1916 e 1919, ele descobriu no Sudão as primeiras evidências de que reis núbios haviam conquistado o Egipto. Recusava-se, no entanto, a acreditar que pudessem ter sido negros. Preferia a tese de que, embora controlassem um reino de africanos negros e “primitivos”, eles teriam a pele mais clara — herança de antepassados egípcios e líbios.

A partir da década de 1960, essa hipótese começou a ser desmontada. Até ser definitivamente arquivada em 2003, quando o arqueólogo suíço Charles Bonnet encontrou em território sudanês 7 grandes estátuas dos faraós negros. Hoje, ninguém mais questiona que o controle dos núbios sobre o Egipto foi total. Seu reinado só chegaria ao fim em 670 a.C., com uma ocupação assíria que duraria 8 anos. Ao final desse período, os egípcios passariam a ser governados por Psamtik I, que nada tinha a ver com a dinastia núbia. O Egipto ingressaria numa fase de recuperação económica conhecida como renascença saíta, assim chamada por ter sido liderada pelos soberanos da cidade de Sais.

Citação bíblica
Taharqa, filho de Piye e 3º faraó negro da 25ª dinastia egípcia, é personagem da Bíblia. Ele aparece no Livro dos Reis, do Antigo Testamento. A citação se refere ao avanço do imperador assírio Senaqueribe sobre a região da Judeia por volta de 701 a.C. Taharqa, grafado Tiraca no texto bíblico, ainda não era faraó. Liderava um exército que enfrentou os assírios em Eltekeh, na costa mediterrânea da Palestina – uma batalha sangrenta e que acabou sem vencedores. Quando se preparava para um segundo round, dessa vez nos arredores de Jerusalém, aconteceu o “milagre”: Senaqueribe suspendeu o ataque, levantou o cerco que havia imposto à cidade e misteriosamente foi embora.

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